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VW Brasília: bastidores nunca contados do clássico que faz 50 anos

“Um veículo pequeno, maior por dentro do que por fora”, que era espaçoso e confortável 

Brasília do acervo da Garagem Volkswagen (Marcos Camargo/AutoShow)

A Brasilia é um dos modelos de maior êxito da linha Volkswagen no Brasil. Após o primeiro momento de chegada no fim dos anos 1950, a marca detinha 70% do mercado mas ano a ano via surgir novos carros no mercado brasileiro. Depois de ver a morte dos projetos dos anos 1950 como Renault Dauphine e Gordini, DKW Belcar e Vemaguet e outos concorrentes, a Volkswagen assistiu de camarote o sucesso do Ford Corcel, a estreia do Dodge 1800 e a chegada do Chevrolet Chevette seriam duros golpes para a marca do Fusca. 

Apresentação da Brasilia aos concessionários (VW Divulgação)

Assim, a marca trabalhava em um projeto que deveria ser mais bem sucedido que o sedã 1600. Fruto desse cenário, surgiu um automóvel simpático, confiável, moderno e inteligente, o Brasilia. Sim, o correto é no masculino, mas que o brasileiro, arredio, sempre chamou de a Brasilia e assim mesmo sem acento.

Variant, perua da Volkswgen, derivada do EA97 (VW Divulgação)

A partir de 1971, quando os projetistas da época finalizavam projetos como o 1600, a Variant e o TL derivados dos antigos EA 97 da década anterior, e ainda o Karmann Ghia TC, o ex-presidente da Volkswagen Rudolf Leiding, queria deixar uma marca profunda na subsidiária brasileira, o que renderia uma série de conflitos internos. Ele aprovaria um projeto totalmente concebido no Brasil e que seria um sucesso internacional. Isso nunca havia acontecido antes. A matriz viu sua filial com outros olhos onde novos produtos nasciam com uma independência inesperada.

possíveis projetos visuais para o Brasília (VW Divulgcacao)

Todos os projetos da Volkswagen derivavam do Fusca que ficava antiquado ano a ano apesar do sucesso. Ele era barato mas já nem tanto lucrativo. E muitos carros modernos vinham conquistando parte da sua clientela. A partir de traços retos e modernos, nasceria um hatch de ampla área envidraçada, muito espaço interno e os predicados do Fusca com sua mecânica ainda irresistível: motor traseiro boxer refrigerado a ar.

Márcio Piancastelli ao lado do esportivo SP (VW Divulgação)

Aproveitando o espaço “desperdiçado” pelo Fusca nos para-lamas surgiria um carro com amplo salão para os passageiros. Seguindo a ideia de um porta-malas raso traseiro e outro amplo sob o capô dianteiro, o Brasilia não seria uma perua alongada como a Variant. Seria hatch e mais esportivo.

Projeto da Brasília ao estilo minivan antecipando estilos (VW Divulgação)

Inicialmente a Brasilia teria um desenho muito distinto do aprovado. Mas seria futurista demais. O Brasilia também teria um pouco da escola de Bauhaus no desenho afunilado do seu bico, no desenho do painel e nos detalhes traseiros. O primeiro desenho de Mario Piancastelli era como o de uma minivan.

projeto aprovado: a Brasília chegaria em junho de 1973

A dianteira bicuda viria da necessidade de abrigar o pneu estepe. Com clay, a orientação era para os projetistas melhorarem a dianteira do carro dando ainda um estilo único.

painel do Brasília inspirado no DKW Fissore em imagens de catálogo da época (VW e DKW Vemag Divulgação)

Por dentro, a ideia de um painel elevado seria descartada pois nos primeiros esboços os projetistas viram que o espaço interno do carro era uma grande vantagem para seus 4,01 de comprimento e apenas 2,40m de entre-eixos. Com uma ampla porta de acesso (a Brasilia teve versões quatro portas de pouco sucesso por aqui mas boa aceitação no mercado internacional), tudo ficava mais fácil.

o apelo do modelo compacto e familiar com mecânica consagrada: eis o Brasília (VW Divulgação)

As amplas dimensões de um carro pequeno foram bem trabalhadas pelo departamento de Marketing. Uma fita métrica com essa frase acompanhava o material de lançamento da Brasilia, nome da jovem capital federal, que explicava por si só o nome de um carro bem brasileiro.

desempenho modesto com motor de 60cv (VW Divulgação)

O motor era o 1600 de apenas 60cv com carburação simples que dois anos depois passaria a ter dupla carburação bem mais eficiente. O freio era a disco, algo moderno para a época. Ar condicionado e direção hidráulica passavam longe enquanto a concorrência também. Brasília com o ou com a era um sucesso de vendas.

fotos de catálogo de época (VW Divulgação)

Mesmo um pouco barulhenta e com desempenho razoável, a Brasília era o upgrade de quem tinha um Fusca e ofuscou com boa desenvoltura os competidores. O Dodge 1800 tinha problemas de qualidade, o Corcel iria bem e o Fiat 147 seria uma promessa para os próximos anos. Era melhor se mexer. E o Fusca já não tinha fôlego de outros tempos.

projeção de uma versão esportiva por Márcio Piancastelli (VW Divulgação)

A partir de 1975 começaram os estudos para modernização do carro. Ele poderia ter ganho duplo farol quadrado em uma nova dianteira ou o farol de pé com grade horizontal, solução que seria usada no Passat e no Gol nos anos 1980, mas nunca na Brasilia. Fotos de época mostram ainda versões esportivas nunca lançadas no carro.

versão 4 portas, oferecida no Brasil, sem sucesso (VW Divulgação)

Em 1978 ela ganhava pequenas mudanças estéticas mantendo seu estilo. Em 1980 mudaria o painel inspirado nos elementos da aviação. “Painel de 2001”, dizia a propaganda da época. Os bancos seriam mais envolventes e também seriam usados no Gol. 

propaganda usou e abusou das virtudes do carro (VW Divulgação)

Na comemoração dos 50 anos do Brasilia, a Volkswagen chamou um grupo de apaixonados pelo modelo nacional. Günter Hix, que trabalhou no projeto do Brasilia contou alguns pormenores da época. “Os paineis tinha plástico injetado, coisa moderna para época, mas fizemos as peças um pouco mais baixas para aumentar a sensação de espaço”, conta orgulhoso. A modernidade do carro também foi destacada no livro “Brasilia” do colecionador Fábio Pagotto.

modelo preservado no acervo: LS verde turmalina 1980 (Marcos Camargo/ AutoShow)

A partir de 1978 a Volkswagen passou a reservar algumas unidades dos modelos de produção para um futuro acervo. O primeiro foi uma Variant II e o segundo foi justamente o Brasilia LS 1981 verde Turmalina do acervo. O carro nunca foi emplacado e segue totalmente íntegro por cuidado dos funcionários. “Na fábrica não tinha coração para coisa velha. Mas a gente requisitou o carro, cuidou dela ao longo do tempo…” lembra Hix.

linha de produção na Volkswagen Anchieta (VW Divulgação)

Com mais de 1 milhão de unidades produzidas a Brasilia não deixou sucessor natural. Em 1980 o lançamento do Gol selaria o final de muitos produtos da marca Volkswagen em prol de algo novo. O Gol também seria um grande sucesso a ponto de despertar conflitos internos entre o departamento de projetos na matriz alemã e a filial brasileira. Com o Gol viriam o Voyage, Saveiro e a perua Parati. De tão modernos aposentaram a Brasilia em 1982 após a marca desmentir que iria descontinuá-la. 

mais de 100 mil unidades foram exportadas para outros países da Europa, América do Sul e África (VW Divulgação)

A linha do Gol mostraria uma estratégia certa para a marca. Todos os produtos derivados foram um sucesso de mercado ao longo dos anos 1980 e 1990 na mesma geração. A Brasilia provou sua resistência e segue agradando fãs da marca. Nos eventos do AutoShow são vistas aos montes e muitas seguem rodando por todo o país.